Na sequência da aula de ontem (onde abordámos diferentes contributos da Psicologia Vocacional para a análise e promoção do processo de exploração reconstrutiva do investimento vocacional pela metodologia da acção-integração), a tarefa de hoje consiste na análise crítica deste artigo de
Arseth, A., Kroger, J., Martinussen,M., Bakken, G. Intimacy status, attachment, separation-individuation patterns, and identity status in female university students . Journal of Social and Personal Relationships September 2010 vol. 27 no. 6 749-780.A análise crítica que é solicitada consiste num comentário em que se explicite de que modo estes resultados podem ser enquadrados na prática de intervenção psicológica em "domínio vocacional". Dada a extenção do artigo, a data limite para apresentação de comentários aqui no blog será 2 de Novembro.
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Arseth, A.; Kroges, J.; Martinussen, M. & Márcia, J. (2009) realizaram uma investigação subdividida em dois estudos, cujos objectivos eram os seguintes: 1) analisar a relação entre os estatutos de identidade definidos por Márcia e os padrões de vinculação e 2) verificar a relação existente entre os estatutos de identidade e a intimidade.
ResponderEliminarSegundo Márcia (1988, 1993) o padrão de vinculação segura proporciona o desenvolvimento da identidade Realizada (Acieved Identity) e da Moratória (Moratorium Identity), uma vez que os adolescentes sentem-se seguros para explorar o meio ambiente e sabem que podem sempre recorrer ao porto seguro, quando necessitarem.
Através dos resultados obtidos no primeiro estudo constatamos que, há uma relação entre os estatutos de identidade de Márcia e os padrões de vinculação, nomeadamente:
- a identidade Realizada (Achieved Identity) e a identidade Difusa (Difusion Identity) estão correlacionadas positivamente com o padrão de vinculação segura;
- a identidade Realizada (Achieved Identity) e a Outorgada (Foreclosure identity) estão correlacionadas positivamente com o padrão de vinculação segura e apresentam uma correlação negativa com o padrão de vinculação insegura;
- o estatuto de Moratória (Moratorium Identity) correlaciona-se negativamente com o padrão de vinculação segura.
Ao nível da intervenção psicológica no domínio vocacional, este estudo permite-nos compreender o processo de construção de uma identidade pessoal e profissional dos estudantes que se vêem obrigados a tomar uma decisão após o 9º ano.
Apesar dos estudantes estarem dotados de alguma liberdade para fazer escolhas, de entre um conjunto necessariamente limitado de opções, eles assumem diferentes formas de conduzir o processo de decisão, que parecem expressar diferentes processos de construção identitária.
Deste modo, quanto mais diversificadas e significativas forem as experiências vividas pelos jovens, maior será o seu envolvimento no processo de decisão, traduzindo-se em atitudes exploratórias e de investimento.
Cont.
ResponderEliminarÉ aqui que surge a importância desta investigação, uma vez que as relações de vinculação iniciais são de facto basilares em termos do que somos enquanto seres relacionais e enquanto espécie, porém, devemos ter em atenção que a história de cada um não se resume à qualidade das relações iniciais. Neste sentido, uma vinculação segura irá proporcionar ao jovem maior confiança para explorar o meio que o rodeia.
Nesta linha de pensamento, estávamos à espera que, na presente investigação se encontrasse uma correlação positiva entre a identidade Realizada e o estatuto de Moratória. Contudo, a correlação positiva que encontramos entre a vinculação segura e a Identidade Difusa permite-nos compreender que o adolescente pode não estar a explorar actualmente alternativas vocacionais, mas pode ter sentido segurança para tê-lo feito no passado. No entanto, não conseguiu tomar nenhuma decisão, nem chegar a nenhum compromisso, não estando também preocupado em fazê-lo. Verificamos deste modo, que os pais deixarão de existir e a vinculação permite integrar a partir da existência de alguma maturidade física e mental, a outros significativos, havendo por isso, um maior investimento nos sistemas afiliativo e sexual, acabando por ser adiado o projecto vocacional.
Na mesma linha de pensamento verificamos igualmente, a existência de uma correlação positiva entre a vinculação segura e a Identidade Outorgada (Foreclosure Identity), ou seja, o adolescente persegue as metas ideológicas e profissionais eleitas por outros que lhe são significativos (pais, figuras de autoridade). Perante este estatuto de identidade, o Psicólogo de Orientação Vocacional depreende que este adolescente vive numa relação simbiótica com os pais/figuras parentais, ou seja, ele apresenta uma elevada dependência emocional e afectiva, acabando por tomar somente as decisões que forem escolhidas por eles, de forma a evitar assumir a responsabilidade pelos seus próprios actos (Locus de controlo externo). Neste sentido, esta variável de separação e individuação face ao sistema familiar deverá ser equacionada no âmbito da intervenção, ou seja, a escola, gozando de uma autonomia relativa face ao enquadramento macrossocial, deverá assumir um papel central, enquanto promotora de quadros de referência alternativos, sobretudo nos casos em que a família tem mais dificuldade em fazê-lo.
A correlação negativa encontrada entre a vinculação segura e o estatuto de Moratória, permite-nos concluir que o adolescnte pode encontrar a sua verdadeira identidade, sem ter de experimentar diferentes papéis.
cont.
ResponderEliminarO segundo estudo, cujo o objectivo era investigar a relação entre os estatutos de identidade e a intimidade, permitiu-nos retirar as seguintes conclusões:
- nos homens, há uma relação positiva entre os estatutos de identidade elevada (Achieved e Moratorium) e a capacidade para estabelecer relações mais íntimas, verificando-se igualmente, o mesmo tipo de relação entre os estatutos inferiores de identidade (Foreclosure e Difusion) e a baixa capacidade para estabelecer relações de intimidade;
- nas mulheres, os estatutos inferiores de identidade podem dividir-se em dois grupos diferentes ao nível da intimidade (capacidade elevada vs baixa capacidade para estabelecer relações íntimas).
Através deste estudo concluímos que, os estatutos de Moratória e de Construção de Identidade (Achieved Identity) são os mais elevados no processo de desenvolvimento da identidade pessoal, pois estes estão associados a características positivas, como por exemplo, elevada auto-estima ou maior autonomia, e, principalmente, "abertura para as mudanças na sociedade e as mudanças nas relações" (Stephen, Fraser & Marcia, 1992, p. 285).
Conseguimos assim, compreender que, os estatutos de Identidade Difusa (Difused Identity) e Outorgada (Foreclosure Identity) são os que estão mais associados com a dificuldade em estabelecer relações íntimas, uma vez que o adolescente ainda não assumiu nenhum compromisso em relação à sua verdadeira identidade, em termos ideológicos, profissionais e afectivos e, para além disso, a sua opinião em relação a si próprio depende daquilo que os outros lhe dizem, ou seja, apresenta um baixa auto-estima e auto-confiança que, por sua vez, se repercutem nas relações amorosas.
Arseth, A.; Kroges, J.; Martinussen, Universidade de Tromso, Noruega e James E. Márcia, na Simon Fraser University, Vancouver, British Columbia, Canadá realizaram um estudo meta-analítico sobre os Estatutos de Identidade e as Questões Relacionais de Vinculação de Intimidade.
ResponderEliminarPara este estudo tiveram como suporte dois estudos cujos objectivos assentavam no seguinte: primeiro analisar a relação entre os estatutos de identidade definidos por Márcia e os padrões de vinculação e o segundo verificar a relação existente entre os estatutos de identidade e a intimidade.
Os resultados obtidos no primeiro estudo sugerem uma correlação fraca a moderada entre os estilos de vinculação e os estatutos de identidade. O segundo estudo revelou uma associação positiva entre o estatuto de identidade e intimidade, embora se verificasse essa associação positiva mais nos homens que nas mulheres.
Há cerca de 40 anos Marcia (1966) propôs um modelo de desenvolvimento da identidade sugerindo quatro estatutos qualitativamente diferentes no desenvolvimento da identidade, quer se relacionem com o pessoal, profissional ou ideológico, sendo eles: Diffusion, Foreclosure, Moratorium e Achievers.
O modelo de Marcia foi baseado no estatuto de identidade Erikson e no processo de vinculação de Bowlby.
A ênfase de Bowlby estava particularmente ligada ao laços afectivos, cuja imagem do cuidador era de extrema importância pois revelava (in)segurança e o vínculo tem um papel fundamental no desenvolvimento pessoal e social da criança. A sua teoria foi de certa forma importante que mais tarde se estudou no adulto.
Os resultados obtidos neste estudo podem ser enquadrados na prática de intervenção psicológica em "domínio vocacional" na medida em que as correlações estabelecidas permitem perceber que o sujeito é um ser biopsicosocial. Deste modo quer o seu desenvolvimento seja por “saltos” ou crises, quer seja através dos laços que estabelece (relação mais ou menos securizantes) têm influência na escolhas que faz, ou por outras palavras na forma como percepciona o momento em que terá de fazer uma escolha. As sua experiências, skills, motivações, níveis de segurança, capacidade/habilidade de explorar, as relações que estabelece com os outros e consigo próprio, são parte integrante do seu desenvolvimento.
Na prática da orientação vocacional o sujeito não o é naquele momento e dissociado da mundo/expericências, mas sim num continnum (antes, agora e depois (projectos de vida).)
James Marcia propõe quatro estatutos no que concerne ao desenvolvimento da identidade e faz a sua definição em função das dimensões, exploração e investimento no relacionamento do individuo com o mundo externo. Estes quatro estatutos são diffusion, foreclosure, moratorium e achivers. E representam estilos diferentes de lidar com tarefas psicossociais de desenvolvimento de identidade… estes estatutos de Marcia foram desde sempre utilizados por vários teoricos, em cerca de 550 estudos empriricos acerca da relação entre estatutos de identidade e uma multiplicidade de outras variáveis. Sendo assim, o artigo remete-nos para dois estudos:
ResponderEliminar1 - analisar a relação entre os estatutos de identidade definidos por Márcia e os padrões de vinculação;
2 - averiguar a relação existente entre os estatutos de identidade e a intimidade.
No primeiro estudo podemos verificar que existe uma correlação entre os estatutos de identidade de Márcia e os padrões de vinculação, ou seja, o estatuto de achievers e de difussion encontram-se relacionados positivamnente com o padrão de vinculação segura enquanto que o achivers e o foreclosure apresentam uma correlação positiva com os padrões de vinculação segura mas denotam uma correlação negativa com o padrão de vinculação insegura. O estatuto de identidade Moratorium correlaciona-se negativamente com o padrão de vinculação segura.
Tentando traduzir estes resultados para a prática da OV podemos compreender a construção da identidade dos jovens e as opções que estes fazem em relação ao seu percurso escolar e futuramente profissional. Passo a explicar. Os jovens mais seguros, que apresentam um padrão de vinculação segura facilmente, exploram as opções que têm em termos vocacionais. Existe uma relação de segurança com os primeiros modelos identificatórios (fulcral para o processo de construção de identidade que tem repercurssões em todas as esferas da vida do individuo, enquanto “animal social”). Sentem-se seguros para viverem as suas experiências, numa prespectiva de exploração e de investimento. Digamos, que há um maior comprometimento do jovem no processo de OV. No entanto, apesar dessa vinculação segura com as figuras parentais o jovem terá de investir e explorar para além desse “mundo”, existindo fora desse nucleo familiar e procurando referências externas, é aí que a escola pode intervir, dando-lhe referencias alternativas.
CONT.
ResponderEliminarNo segundo estudo, que tem por objectivo compreender a relação entre estatuto de identidade e a intimidade. De acordo com o princípio epigenético da teoria de Erikson (1963), verdadeira intimidade não deve ser possível até que as questões de identidade são razoavelmente bem resolvidas. Erikson destacou a importância de ter um forte senso de identidade antes da íntimidade, ou seja, é a capacidade que o individuo tem de fundir a sua identidade com alguém sem medo da perda de algo a si. (Erikson, 1968,p. 135). No entanto, ele foi claro sobre como eventuais diferenças de género podem afectar a sua teoria. De facto, tem sido questionada se a sua descrição do desenvolvimento da identidade e da intimidade pode ser normativo para os homens, mas não para as mulheres (Franz & White, 1985; Gilligan, 1982; Schiedel & Marcia,1985).
Assim com esta investigação podemos concluir que, nos homens existe uma relação positiva entre os estatutos achievement e moratorium (elevados) e a capacidade para estabelecer relações intimas. A correlação também se verifica nos estatutos de foreclosure e diffusion (estatutos mais baixos) e a pouca capacidade para estabelecer relações de intimidade. Nas mulheres, os ditos estatutos mais baixos de identidade podem dividir-se em dois grupos diferentes ao nível da intimidade: acapacidade elevada versus a baixa capacidade para estabelecer relações íntimas.
È de realçar que os estatutos mais elevados de identidade – moratorium e achievement – encontram-se assiciados a caracteristicas positivas (segurança, autonomia, capacidade de abertura entre outros). Noutro campo, encontramos os outros dois estatutos que se caracterizam pela difuculdade em estabelecer verdadeiras relações de intimidade e consequentemente, baixa auto-estima, insegurança etc.
James Marcia, numa fase inicial, fala-nos da vinculação como essência da interiorização das normas, consciência ou do super ego. Estas estão directamente relacionadas com a vinculação que o sujeito tem aos outros (figuras parentais, pares, educadores, …), levando-os a desenvolver mecanismos facilitadores ou não da sua identidade. Esta componente tem um carácter essencialmente afectivo, visto o sujeito (independente da idade e do género) tentar agradar para em troca obter reconhecimento. Quanto maior for a sensibilidade do indivíduo ao julgamento ou opinião dos outros, maior será também a pressão sentida dos mecanismos de controlo social e de distanciamento das figuras de referência.
ResponderEliminarMárcia realça, nos seus estudos empíricos, uma maior acessibilidade à Teoria de Desenvolvimento Psicossocial de Erikson e à Perspectiva Construtivista e Desenvolvimental de Kegan.
O autor procura nos campos profissão, relacionamento/família e valores/ideologia indicadores para as variáveis compromisso e exploração/crise, sendo o resultado - O estado da identidade da pessoa.
Erikson classifica o Homem como um ser Biopsicossocial sendo que estes sistemas são inseparáveis, isto é, um não pode existir sem o outro. Márcia no seu estudo corrobora esta opinião, tentando correlacionar todas estas dimensões com os diferentes estados da identidade. Quando existe uma coordenação entre estes sistemas (Bio-Psico-Social), segundo o autor, estamos perante uma pessoa “Sã” que percebe correctamente o mundo que a rodeia e a si mesma.
Segundo Márcia a definição da identidade dentro de uma perspectiva psicossocial passa pela singularidade individual, onde cada um deverá manter a continuidade da experiência e solidariedade para com os ideais de um grupo. Estes permitir-lhe-ão ter uma base sólida de identidade.
Nesta investigação é sugerida a existência de relações entre estilos de vinculação, status de identidade e intimidade. Estes construtos em equilíbrio são considerados, pelo autor, como os fundamentos da personalidade.
Relacionando o anteriormente exposto à prática de intervenção psicológica em domínio vocacional, o período da adolescência revela-se “extremamente rico em saberes e descobertas” devido ao facto de este ser a transição entre a infância e a idade adulta e no qual se verificam os acontecimentos mais relevantes para a personalidade adulta. Cada estadio [ Estatutos de Identidade (Acieved, Moratorium, Difusion, Foreclosure), Vinculação (Segurança, Preocupado, Desinvestido e Amedrontado) e Intimidade (Sexo)] percorrido pelo cliente, contribui para a formação da identidade total, sendo por isso todos importantes mesmo depois de terem sido atravessados (contempla a progressão e a regressão). Como cada Ser Humano tem um ritmo cronológico específico, logo não devemos atribuir uma duração exacta a cada estádio, pois o núcleo de cada um deles é uma crise básica, que existe não só durante aquele estádio específico (onde será mais proeminente), mas também nos posteriores a nível de consequências, tendo origem nos anteriores.
A leitura atempada do(s) estadio(s) em que se encontra o cliente permitirá ao Psicólogo direccionar a sua intervenção no sentido da prática mais adequada, conjugando factores que levarão o cliente às suas proprias escolhas e responsabilidade sobre as mesmas.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarHá quatro décadas atrás, Marcia (1966) propôs um modelo de desenvolvimento da identidade, sugerindo
ResponderEliminarquatro estatutos qualitativamente diferente da resolução de identidade.
Estes quatro estatutos são:
- diffusion,
-foreclosure,
-moratorium,
-achivers
O artigo remete-nos assim para análise de dois estudos que tinham como objectivos:
- analisar a relação entre os estatutos de identidade definidos por Márcia e os padrões de vinculação;
- averiguar a relação existente entre os estatutos de identidade e a intimidade.
No primeiro estudo podemos verificar que existe uma correlação entre os estatutos de identidade de Márcia e os padrões de vinculação. Assim:
- o estatuto de achievers e de difussion encontram-se relacionados positivamente com o padrão de vinculação segura
- o estatuto de achivers e o de foreclosure apresentam uma correlação positiva com os padrões de vinculação segura mas denotam uma correlação negativa com o padrão de vinculação insegura.
- O estatuto de identidade moratorium correlaciona-se negativamente com o padrão de vinculação segura.
A sexta tarefa de acordo com a teoria psicossocial de Erikson (1963), o conflito entre "Intimidade versus isolamento" é realizado durante o início da vida adulta. A verdadeira intimidade significa ter "a capacidade de comprometer-se em afiliações concretas e de parcerias, assim como desenvolver a força ética necessária para fazer cumprir tais compromissos, mesmo que estes impliquem sacrifícios e compromissos significativos "
O objectivo desta meta-análise é explorar a relação entre o estatuto de identidade e intimidade e investigar possíveis diferenças entre os sexos nessa associação através da realização de análises de amostras separadas para homens e mulheres.
Foi possível concluir que:
- Nas mulheres os estatutos inferiores de identidade podem sub-dividir-se em dois grupos diferentes ao nível da intimidade (capacidade elevada vs baixa capacidade para estabelecer relações íntimas).
- Nos homens, há uma relação positiva entre os estatutos de identidade elevada (Achieved e Moratorium) e a capacidade para estabelecer relações mais íntimas,
- Nos estatutos inferiores de identidade (Foreclosure e Difusion) existe uma baixa capacidade para estabelecer relações de intimidade.